Publicado originalmente em beboitalia.com.
Subi o Piemonte depois da Vinitaly para ver o que acontece com a Nebbiolo quando ela sai de casa. Carema, Gattinara, Boca, Ghemme, Roero — e uma dúvida sobre a Valtellina que ainda não fechou.
Essa masterclass não começou numa lista de vinhos. Começou no meu planejamento pra viagem que eu faria ao Piemonte em abril. Em 2025, eu fui conhecer onde se produzia Timorasso, no Colli Tortonesi. E de la, dei uma volta por Barolo e Barbaresco. E saí com a vontade de voltar, mas direcionado, com planejamento previo, com vinicolas agendadas e com um estudo vitivinicola do roteiro que eu faria posteriormente. Coisa de Nerd. Mas o roteiro já me ajudou a iniciar a viagem. E a viagem me deu a ideia de transportá-la ao Brasil de algum maneira. Na garrafa. E foi isso que que acabei fazendo. Uma garrafa de cada lugar, de cada vinícola. E depois uma masterclass disso. E os produtores se engajaram na ideia! Mas voltemos a contar sobre a viagem.
Se existiu um início, pode-se dizer que ele começou num carro alugado em abril de 2026, saindo de Verona depois da Vinitaly, com dois dias a mais no calendário e uma teimosia na cabeça.
O roteiro, como falei, eu fiz, claro. Barolo, Barbaresco, arredores de Alba, e faria tudo de novo. Mas o que me puxava era outra pergunta: seria o Langhe o único destino lógico de quem quer beber Nebbiolo? Mas o que acontece com essa uva quando ela está “fora de casa”? Resolvi eu sair da casa dela também! Roero (que é do lado), Carema (que tecnicamente nao é Alto Piemonte, mas tudo bem), Gattinara, Boca, Ghemme, uma volta inteira pelo Alto Piemonte. Muro de pedra seca, pérgola apoiada em pilastra, produtor com dez hectares na mão e aquela paciência de quem já explicou isso mil vezes e vai explicar de novo.
A Valtellina ficou de fora. Não deu, e virou dívida pro futuro. Mas nesta noite ela entra na taça mesmo assim, e três vezes. Porque ela é importante demais nesse jogo. Muitos dizem que é ali a origem da Nebbiolo. Chiavennasca, aliás. Mas seguimos.
O que voltou comigo na mala não foi ficha técnica. Foi a impressão de que a Nebbiolo troca de roupa em cada lugar e continua se expressando lindamente em quase todos eles. Barolo e Barbaresco são o que são, e não estou aqui para relativizar nada, até porque não é à toa que elas são reverenciadas. Só que eles não são o fim da conversa e, se a genética estiver certa, talvez nem sejam o começo dela.
A uva que troca de nome em cada terroir
Comece pelo nome, porque o nome já entrega o jogo.
Em Novara e Vercelli a Nebbiolo se chama Spanna, e o termo aparece documentado desde 1466. Em Carema é Picotener, ou Picotendro, mesma palavra em duas grafias, emprestada do Valle d’Aosta ali do lado. Vem de picciolo tenero, o pedúnculo mole. Na Valtellina ela é Chiavennasca, registrada em 1595. E no Val d’Ossola, Prünent, cuja primeira menção é de 1309 — mais velha que todas as outras.
Quatro nomes para a mesma videira, cada um deles mais antigo que a maioria das denominações que a gente reverencia hoje. Isso é a prova de que esses lugares nunca precisaram de Barolo para saber o que tinham plantado.
E já que estamos no assunto: a genética identificou dois genótipos de Nebbiolo, Lampia e Rosé, mas três fenótipos, porque o Michet nada mais é do que Lampia doente, infectada por vírus. Picotener e Chiavennasca descendem da Lampia. Já o Nebbiolo Rosé é tratado como variedade distinta, parente de primeiro grau e não a mesma uva.
Um vulcão que ninguém vê
O Alto Piemonte está plantado em cima de um cadáver.
Há uns 280 milhões de anos, o supervulcão do Valsesia explodiu e desabou sobre si mesmo. Depois a África bateu na Europa, os Alpes subiram e a crosta girou e expôs as vísceras daquele vulcão. Mais tarde vieram as geleiras, que desceram o vale carregando pedaço de entulho vulcânico para todo lado e deixaram a bagunça de solos que existe ali até hoje. Você não vê cone nenhum na paisagem. Vê o miolo dele, deitado.
O resultado prático mora no pH. Enquanto as Langhe trabalham num solo alcalino, com pH lá pelos 8, o Alto Piemonte vive em solo ácido, entre 4,2 e 5,0. Pórfiro em Gattinara e Bramaterra. Areia marinha em Lessona. Morainas do Monte Rosa em Ghemme, onde, nas palavras de David Way em Wines of Piemonte, o solo “não é produto de ação vulcânica como em Gattinara, mas do recuo das geleiras”.
Aí você olha o mapa e monta a regrinha: margem oeste do rio Sesia, vulcânica; margem leste, glacial. Bonita, a regra. Só que ela fura dos dois lados. Boca está na margem leste e é de origem vulcânica, dividindo o pórfiro de Bramaterra (ainda que misturada com morainas e aluviões). E Lessona, na margem oeste, é areia marinha pura. O próprio Way avisa que ali generalizar não ajuda muito.
O que ajuda é o tamanho. As dez denominações do Alto Piemonte, somadas, produzem a partir de cerca de 520 hectares. Registrados, são 800, o que já diz alguma coisa sobre abandono. Ghemme declara 50. Boca declara 18 e, na conta de Christoph Künzli, do Le Piane, tinha quase mil no fim dos anos 1880 e estava reduzida a dez no começo dos anos 1990. Fara tem 5 hectares. Cinco.
Segura esse número, porque, como resume Antonio Galloni, no século XIX “Gattinara, e não Barolo ou Barbaresco, era o tinto mais famoso do Piemonte”. O que aconteceu no meio do caminho tem nome e sobrenomes: filoxera, duas guerras e êxodo, já que a fábrica lá no plano estava pagando melhor que o trabalho rural e pesado da colina.
Carema: mais muro do que terra
De tudo que vi na viagem, Carema foi o que me deixou mais estupefato.
São cerca de 18 hectares declarados, exatamente no ponto em que o Piemonte vira Valle d’Aosta. Já foram 120. As vinhas sobem em terraço entre 300 e 500 metros, conduzidas em pérgola alta de castanheiro (ali chamada topia), apoiada nas pilastras de pedra que os locais chamam de pilun.
Nada daquilo é enfeite. O muro de pedra seca guarda o calor do dia e devolve à noite; a pilastra faz a mesma coisa, ponto a ponto, dentro do vinhedo. É calefação a energia solar, construída à mão, por gente que nunca ouviu falar em balanço térmico e acertou assim mesmo.
O preço, na conta de Federico Santini da Muraje: 1.800 horas de trabalho por hectare por ano. No resto do Piemonte, 400. Vai por mim, quando você está lá em cima e olha para baixo, o número faz sentido imediato: tem mais muro do que terra.
Na nossa mesa, Carema chega pela Muraje, projeto de Federico e Deborah Santini, primeira safra em 2017, trabalhando vinhas de meio século. Delicadeza que engana, com uma barra de aço no meio.
A palavra que não cabe no rótulo
Roero existe por acidente geológico e não é força de expressão.
Entre 220 mil e 150 mil anos atrás, o rio Tanaro mudou de curso e separou o Roero de Barolo e Barbaresco. De um lado predomina a areia, embora o produtor esperto guarde para a Nebbiolo justamente os pedaços com mais argila. Do outro, as marnas de sempre. Mesma uva, um punhado de quilômetros de distância, e um vinho que chega floral, de cereja vermelha, tanino mais leve e acidez afiada.
Agora, a implicância. O disciplinare exige no mínimo 95% de Nebbiolo e a maioria usa 100%, mas o vinho não se chama Roero Nebbiolo. Se chama Roero DOCG, e ponto. Quem quiser a palavra “Nebbiolo” na garrafa tem que sair da DOCG e engarrafar como Nebbiolo d’Alba ou Langhe Nebbiolo, que é o que boa parte faz, e é exatamente o que trava a região. Way é direto ao dizer que ter a variedade no nome do tinto teria sido o melhor caminho, e que a denominação foi para o lado oposto.
Então o Roero é 100% Nebbiolo e não diz isso na frente, enquanto o consumidor lá fora vasculha a prateleira procurando exatamente essa palavra. Não me olhe assim, eu também acho estranho.
Dois mil e quinhentos quilômetros de muro
A Valtellina é o lugar onde a montanha aceitou negociar.
Quase todo vale alpino corre norte-sul. O Adda corre leste-oeste, e essa esquisitice de mapa é a razão de tudo: as vinhas ficam na margem norte, olhando para o sul, entre 300 e 750 metros, em encostas que chegam a 70% de inclinação. Para segurar aquilo de pé foram erguidos 2.500 quilômetros de muros de terraço. Dois mil e quinhentos. Dentro deles a temperatura fica de 4 a 5 °C acima da planície, e geada vira evento raro. O solo tem entre 40 e 120 centímetros de espessura, com pH que desce a 3,5. Custo da brincadeira: 1.200 a 1.500 horas de trabalho por hectare ao ano.
E tem o Sfursat. O Nebbiolo feito por appassimento. Uva colhida uma semana antes da safra normal, secada de dois a dois meses e meio em esteiras até por volta de 1º de dezembro, ou até bater 14% de álcool potencial, perdendo perto de 30% do volume no caminho. Prensa só depois do dia 10. Nebbiolo passificada, seca no copo, com DOCG própria. Vamos abrir um de 2010, dezesseis anos de garrafa, e você decide se aquilo é exagero ou o contrário.
Guardei a melhor para o fim. Estudos genéticos do final dos anos 2000 mostraram que a Nebbiolo tem parentesco genético estreito com variedades locais da Valtellina, como a Brugnola, o que indica que ela seria originária dali, da Lombardia, e não do Piemonte — embora a VIA ainda dê o caso como aberto.
Traduzindo: a certidão de nascimento da uva mais orgulhosamente piemontesa do mundo ainda está em disputa. E pode ser que a gente termine a noite bebendo na casa onde ela nasceu.
A pergunta da noite
Doze taças. Abre num rosato de Colline Novaresi e fecha numa Nebbiolo passificada de 2010, com Alto Piemonte, Langhe, Roero, Carema e Valtellina no meio do caminho.
E a pergunta que sustenta a noite inteira: dá para reconhecer a Nebbiolo em todas elas? Ela é a mesma uva em Carema e em Sondrio, ou o lugar fala mais alto que a variedade? E se falar mais alto, o que sobra de Nebbiolo na taça? Você vai ter doze chances de responder.
Vamos checar isso juntos? E da seguinte maneira:
Os doze vinhos que vou abrir
Mirú Rossini · Colline Novaresi DOC Rosato 2023
Antoniolo · Gattinara DOCG 2015
Travaglini Riserva · Gattinara DOCG 2018
Antoniolo Juvenia · Coste della Sesia DOC 2022
Nadia Curto · Langhe Nebbiolo DOC 2023
Malvirà Trinità · Roero DOCG 2020
Muraje Sumié · Carema DOC 2022
Le Piane · Boca DOC 2020
Mirú · Ghemme DOCG 2019
Nino Negri · Rosso di Valtellina DOC 2023
Nino Negri Riserva · Valtellina Superiore DOCG 2018
Nino Negri · Sfursat di Valtellina DOCG 2010
Onde provar isso
Esse é o ITAstings #03, dia 1º de outubro, quinta, 19h29, na Trindade, em Florianópolis. Detalhes, valores e inscrição na página da masterclass.
Lembrando que essas masterclasses fazem parte da série ITALIANIDADE, que vai se estender por 2027!










