Publicado originalmente em beboitalia.com.
Toda segunda, a beboitalia al sorso traz um resumo do que aconteceu no vinho italiano na semana. Esta é a da semana 42.
Teve de tudo nesta semana: um assalto que parece roteiro de série, a Toscana mexendo na denominação mais vendida dela e uma conta que não fecha (tem vinho demais parado nas adegas italianas, e pouca gente querendo comprar).
O MAIOR ROUBO DE VINHO DA HISTÓRIA DA ITÁLIA: 30 MIL GARRAFAS DA ANTINORI
Na noite de sábado, 3 de outubro, uma quadrilha entrou no centro logístico da Marchesi Antinori em San Lorenzo di Cortona, na província de Arezzo. Rostos cobertos (sete homens, segundo o Financial Times, via Il Sole 24 Ore; no máximo cinco, segundo o jornal La Nazione). Desligaram o alarme e as câmeras internas, ligaram as empilhadeiras da própria Antinori e encheram dois caminhões. Com calma. Ninguém viu nada até segunda de manhã, quando os funcionários chegaram e encontraram o galpão vazio.
O que levaram: cerca de 30 mil garrafas, quase todas da safra 2023, avaliadas em uns 5 milhões de euros. E não era qualquer vinho. Tinha Tignanello, Guado al Tasso e pelo menos 10 mil garrafas de Solaia, um rótulo que sai em algo entre 50 e 70 mil garrafas por ano. Faz a conta: foi embora numa noite uma fatia gorda de uma safra inteira de um dos tintos mais disputados da Itália. Na prateleira, cada garrafa dessas vale de 150 a 500 euros. Piero Antinori comparou o golpe a “entrar numa joalheria”.
O detalhe que mais me intriga é que as garrafas já estavam paletizadas, embaladas para embarque. Iam para os négociants de Bordeaux (clientes fiéis do Solaia) e também para os Estados Unidos, segundo o próprio Piero, em entrevista ao La Nazione. “Carregaram toda a mercadoria pronta para ser enviada. Só que ela saiu nos caminhões errados.” Ele acha que foi roubo sob encomenda: quem levou já sabia onde ia desovar tudo isso. O site Open diz ainda que as placas dos caminhões eram falsas.
Renzo Cotarella, CEO da casa, chamou os ladrões de “profissionais, mas também conhecedores de vinho” e admitiu que o seguro cobre furtos menores, não um rombo desse tamanho. A aposta dele está na rastreabilidade. Toda garrafa premium da Antinori leva uma faixa antifalsificação que se lê pelo celular (“não é um QR code, é um sistema mais complexo”), e quem comprar pode responder por receptação. “Dois caminhões cheios de mercadoria não podem sumir no nada”, disse ao Corriere della Sera, segundo o Cronache di Gusto. Até agora, sumiram: os Carabinieri de Cortona investigam em sigilo e ninguém foi preso.
E não é caso isolado. Poucas semanas antes, a Conterno Fantino, nas Langhe, perdeu 3 mil garrafas (um décimo do golpe da Antinori). Susanna Crociani, vice-presidente do Consorzio del Vino Nobile di Montepulciano, foi direto ao ponto: os grandes tintos toscanos viraram “beni rifugio”, ativo de reserva de valor, e por isso entraram na mira do crime organizado. A resposta do consórcio dela é rastreamento digital no rótulo. “Tornando o produto roubado invendável, vamos tornar esses golpes inúteis.”
Tá, confesso: a primeira coisa que pensei foi em quem vai abrir um Solaia 2023 daqui a cinco anos sem saber de onde ele veio. A segunda foi mais prosaica: se até o Solaia precisa de faixa escaneável e consórcio falando em crime organizado, o vinho de colecionador foi parar na mesma gaveta das joias e dos relógios caros.
Fontes: Cronache di Gusto · Il Sole 24 Ore / Financial Times · La Nazione · Open
TOSCANA IGT: ESPUMANTE LIBERADO, RÓTULO NOVO E A META DE SER 100% TOSCANA
A IGT Toscana fez 31 anos na sexta-feira, 9 de outubro, e o consórcio apresentou nesse dia o que vem por aí (WineNews). Não é pouca coisa. Estamos falando de uma média de 91 milhões de garrafas por ano, 458 milhões de euros em valor e 69% de exportação: é a denominação que leva o nome da região mais famosa da Itália para o mundo inteiro.
O novo disciplinare já está na Comissão Europeia e deve ser aprovado entre o fim de 2026 e o começo de 2027. A partir de 2027, a IGT passa a aceitar espumante branco e rosado, tanto pelo método Martinotti (Charmat) quanto pelo Metodo Classico, além de tinto frisante. O Vin Santo fica de fora, reservado às DOPs. Tem uma condição que eu acho a parte mais interessante: toda a espumantização terá de acontecer dentro da Toscana. Nada de mandar o vinho-base para o Vêneto e trazer de volta com bolha. “Vai exigir tempo e investimento, mas nos pareceu uma questão de credibilidade e seriedade”, disseram o presidente Cesare Cecchi e o diretor Stefano Campatelli. A expectativa é de alguns milhões de garrafas em cinco a dez anos.
Muda também o rótulo. Some o “Toscano” e fica só “Toscana”. Some o “Rosso di Toscana” e o “Sangiovese di Toscana”; entra “Toscana IGT Sangiovese”, com o nome da uva opcional e nunca em letra maior que “Toscana”. Segundo o consórcio, 60% dos rótulos atuais vão precisar ser refeitos até a vindima de 2027. E com o erga omnes (desde junho o consórcio representa toda a denominação, não só os associados), vem fiscalização de verdade: 40 a 50 coletas direto da prateleira, com análise de rótulo e de laboratório.
O presidente Cesare Cecchi quer ir além. Pede redução estrutural de rendimento (na última vindima o corte já foi de 20%, de 170 para 136 quintais por hectare nos tintos), quer fechar o cadastro de vinhedos e sonha com uma IGT feita só com uva toscana. Hoje a regra europeia exige 85%. A ideia é poder dizer, sem asterisco, “io sono Toscana”. E guarda esse número para a próxima matéria: a IGT Toscana é a segunda denominação com mais vinho parado em estoque na Itália.
Fontes: WineNews
VINHO DEMAIS, COMPRADOR DE MENOS: A CONTA QUE NÃO FECHA
Começo pelo número que me fez parar. Em 30 de setembro, as adegas italianas guardavam 41 milhões de hectolitros de vinho, 14,2% a mais que um ano antes, segundo o registro Cantina Italia do Icqrf (WineNews). Somando mosto (12,8 milhões, +50,5%) e vinho novo ainda fermentando (8,9 milhões, +92,8%), passa de 62 milhões de hectolitros.
Agora compara com a produção. A Comissão Europeia estima a produção italiana de 2026 em 41,1 milhões de hectolitros, cerca de 7% a menos que os 44,4 milhões de 2025 (Gambero Rosso). E no fim de julho, antes da colheita, as adegas já tinham 42,6 milhões de hl de vinho. Ou seja: o vinho parado na adega antes da vindima já era maior que uma safra inteira da Itália. Um ano de produção no porão. Antes de começar a colher o próximo. Há um ano, esse estoque equivalia a uns 90% da safra. E ele é concentrado: em 30 de setembro, o Prosecco DOC sozinho tinha 3,3 milhões de hl, seguido da IGT Toscana (1,4 milhão) e da IGT Puglia (1,3 milhão).
Por que isso acontece? O consumo encolheu e não volta. Enrico Zanoni, diretor-geral da Cavit, lembrou num debate no Festival Trentodoc que a Itália saiu de 100 para menos de 30 litros por habitante por ano. A conta é de meio século: eram uns 110 litros por cabeça em 1970 e 26 em 2024, ou 42,7 por adulto, pela OIV (Wine Reporter). A conclusão dele foi seca: aquele mundo “não existe mais”, e “é inútil defender produções que têm dificuldade no mercado e a preços que não remuneram”. Zanoni defende cortar a oferta, inclusive arrancando vinhedos, como a França já faz. Rodolfo Maralli, presidente da Banfi, pediu cautela com os arranquios e apostou em marketing territorial. Giampiero Bertolini, CEO da Biondi Santi, aceita eliminar algum vinhedo, mas apontou o dedo para as remarcações exageradas da distribuição.
O arranquio deixou de ser tabu. A França deve produzir 2,1% menos em 2026, também por causa do plano maciço de arranquio de vinhedos, segundo os dados da Comissão. Na Itália, o ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, disse em maio, no congresso da Assoenologi, que está “pronto para avançar” se o setor chegar à unanimidade, mas que ainda prefere apostar em qualidade e mercado. E a cadeia está mudando de posição. A Unione Italiana Vini, que em junho ainda excluía planos generalizados de arranquio, viu o próprio presidente, Lamberto Frescobaldi, aceitar o arranquio em agosto: “se e onde for preciso”, com um “plano B” para o agricultor. A Confagricoltura apoia arranquio voluntário e direcionado, desde que não tire verba da promoção. E as cooperativas da Legacoop pedem para suspender novos plantios e não descartam arrancar onde a crise é estrutural.
Enquanto isso, os números da semana mostram o tamanho do aperto. Nas denominações certificadas pela Valoritalia (56% do vinho DOP e IGP do país), o engarrafamento caiu 3% nos primeiros nove meses do ano (9,86 milhões de hl, WineNews), mas o terceiro trimestre quase estancou a queda (-0,3%) e setembro subiu 4,9%. No trimestre, quem puxa são os brancos tranquilos (+6,7%) e os espumantes brancos (+7,6%). Os tintos caíram 6,7% e as IGTs despencaram 18,9%. No acumulado do ano, os tintos seguem em -8,8% e as IGTs em -13%. “Ainda não podemos falar de uma inversão estrutural”, avisou o presidente da Valoritalia, Francesco Liantonio. E o estoque nas denominações da Valoritalia já estava 16,8% acima do ano anterior no fim de julho.
Do lado do preço, pior. Em setembro, o preço do vinho ao consumidor caiu 2,3% em um ano, enquanto a inflação geral subiu 4,2%, segundo dados do Istat analisados pela UIV. Energia, vidro, transporte e embalagem continuam subindo (OscarWine). A margem do produtor fica espremida no meio (Frescobaldi cobra medidas estruturais de Roma e, sobretudo, de Bruxelas). E o Piemonte saiu na frente com dinheiro público: 1,5 milhão de euros, até 40 centavos por litro, para tirar do mercado vinho DOC e DOCG a granel encalhado (de 300 a 4.000 hl por produtor, com acordo obrigatório com uma empresa de transformação) e dar a ele outro destino, inclusive virar vinagre, com a destilação de crise excluída (Gambero Rosso). As inscrições vão até 30 de novembro. “Nosso vinho é uma excelência que não deve ser desvalorizada”, disse o assessor regional Paolo Bongioanni. Pode até virar vinagre, mas desvalorizar, jamais.
Junta as peças: estoque do tamanho de uma safra, consumo em queda, preço que não acompanha o custo e um setor discutindo onde e quanto arrancar de vinha. Até o consórcio do Toscana IGT, a denominação de muitos dos vinhos mais caros da Itália, já pediu corte de 20% no rendimento na última safra, quer torná-lo permanente e quer fechar o registro de vinhedos da denominação (WineNews). Não é arranquio, mas é a mesma conversa com outro nome.
Fontes: WineNews: estoques · Qualivita / Il Sole 24 Ore: safra 2026 e estoque · Gambero Rosso: safra 2026 x 2025 · WineNews: Festival Trentodoc · Wine Reporter: consumo per capita · Gambero Rosso: Lollobrigida · UIV: contenimento produttivo · WineNews: Frescobaldi e os arranquios · Confagricoltura · Legacoop · WineNews: Valoritalia · Istat: preços ao consumidor · UIV: preço do vinho · OscarWine: preços e custos · WineNews: Piemonte · Gambero Rosso: Piemonte · WineNews: Toscana IGT
EM POUCAS PALAVRAS: A GAJA NÃO ESTÁ À VENDA
Circulou a história de que a família Gaja estaria vendendo a vinícola e a Gaja Distribuzione para um grupo internacional. A família desmentiu ao WineNews com uma expressão deliciosa: “bufala da Bar Sport”, aquela fofoca de boteco. Diz que nunca houve negociação com ninguém (propostas, sim, não faltaram) e que o caminho segue sendo a passagem de geração dentro da família. Gaja, como diz o título, “não tem preço”.
Fontes: WineNews
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Saúde, e até a próxima segunda.
Pablo


