Publicado originalmente em beboitalia.com.
Toda semana, um resumo direto do que rolou no vinho italiano. Semana 31, 2026 — de 24 a 31 de julho.
Essa semana rendeu vindima adiantada, número de exportação que não fecha e a despedida de um nome que carrega meio século de história do Abruzzo. Vamos por partes.
A vindima chegou em julho
No dia 30 de julho a Franciacorta começou a colher. Julho. Nunca tinha acontecido, e a Franciacorta não é uma denominação qualquer: é onde a Itália leva o método clássico mais a sério.
Os números do ano explicam o susto. Maio bateu recorde de dias acima de 32 °C, junho entrou na lista dos mais quentes em 29 anos, e ainda caiu granizo em maio e no começo de junho. Só as chuvas de meados de julho recompuseram a água a tempo. Emanuele Rabotti, presidente do Consorzio, reagiu sem drama nenhum: a natureza dita o tempo, a gente observa e se adapta.
Bonita, a frase. Mas adaptar custa caro, e o custo não aparece em comunicado de consorzio. Silvano Brescianini, da Barone Pizzini, já tinha dado o número que interessa: em vinte anos a Franciacorta perdeu um mês de uva ainda no pé. Um mês. É esse tempo pendurado na planta que constrói acidez. E acidez, num espumante, é a espinha; sem ela sobra vinho com bolha e mais nada.
E o que eles fizeram? Foram buscar uma uva que ninguém queria. A Erbamat era tratada como uva inferior, tinha sido praticamente abandonada, até alguém reparar que ela amadurece tarde e tem uma acidez de fazer limão passar vergonha. Desde 2017 o disciplinare permite até 10% de Erbamat no blend. Numa região onde Chardonnay, Pinot Nero e Pinot Bianco mandam há sessenta anos, isso não é ajuste fino. É correção de rota.
E a Franciacorta não está sozinha. A Coldiretti confirmou que 2026 entra na lista das colheitas mais adiantadas já registradas na Itália, e enquanto a Lombardia colhia em julho a Sicília abria seus cem dias de vindima com as brancas precoces do oeste da ilha. Cem dias do primeiro ao último cacho, cabe uma estação inteira aí dentro. Alguém ainda quer falar em “vindima italiana”, no singular?
Fontes: WINEMAG. Franciacorta, vendemmia 2026 al via il 30 luglio: è la più precoce di sempre. 30 jul. 2026. Disponível em: https://www.winemag.it/franciacorta-vendemmia-2026-al-via-il-30-luglio-e-la-piu-precoce-di-sempre/. Acesso em: 31 jul. 2026. WINENEWS. Prende corpo la vendemmia 2026 in Italia, tra le più precoci di sempre: l’analisi Coldiretti. 28 jul. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/prende-corpo-la-vendemmia-2026-in-italia-tra-le-piu-precoci-di-sempre-lanalisi-coldiretti_597923/. Acesso em: 31 jul. 2026. WINENEWS. Vendemmia 2026: dalla prima a luglio, in Franciacorta, a quella “dei 100 giorni”, in Sicilia. 29 jul. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/vendemmia-2026-dalla-prima-a-luglio-in-franciacorta-a-quella-dei-100-giorni-in-sicilia_598035/. Acesso em: 31 jul. 2026.
Tarifa e exportação: a conta que não fecha
Duas notícias na mesma semana. E são a mesma notícia.
Primeira: os Estados Unidos fixaram a tarifa em 10%. No papel melhorou, e dá pra entender quem respirou. Mas ninguém no setor italiano abriu espumante. Lamberto Frescobaldi, presidente da Uiv, disse que o anúncio até anima, só que as investigações sobre capacidade produtiva deixam a porta escancarada para tarifa nova. Ou seja: ninguém sabe se foi o fim ou o intervalo.
Paolo Castelletti, secretário-geral da mesma Uiv, foi menos diplomático e trouxe número. Desde abril de 2025 as vendas italianas nos Estados Unidos caíram 16% em valor. Uns 360 milhões de euros que sumiram. Os primeiros cinco meses de 2026 foram os piores desde 2017, e quem apanhou mais foi a faixa de preço mais baixa, o que faz todo sentido, porque rótulo que já era barato não tem margem pra absorver tarifa nenhuma.
A segunda notícia fecha a conta. O Nomisma Wine Monitor divulgou o primeiro quadrimestre: exportação de DOP italianos em 1,5 bilhão de euros, queda de 6,2%. O Prosecco segue líder com 506,7 milhões e mesmo assim recuou 3,9%. Quando o Prosecco escorrega, a maré está baixa mesmo.
Agora, um cuidado que quase ninguém toma: isso não é um problema italiano. A França caiu 3,4%. A Espanha, 8,5%. O tinto de Bordeaux levou -18,9%, o pior número da tabela inteira. Denis Pantini, do Nomisma, apontou o padrão que se repete país por país: brancos e espumantes seguram a queda, tinto continua afundando. Quem lê o -6,2% como derrota italiana está lendo errado.
Então de quem é a culpa? Do Trump e da guerra tarifária dele? Da inflação que comeu o poder de compra? Do jovem que não bebe? Do restaurante que cobra três vezes o preço da prateleira? A tarifa entrou numa crise que já estava rolando, e o desconfortável é que nenhuma dessas explicações, sozinha, dá conta do rombo.
Fontes: OSCARWINE. Nuovi dazi USA flat migliorativi ma resta incertezza. 25 jul. 2026. Disponível em: https://www.oscarwine.it/nuovi-dazi-usa-flat-migliorativi-ma-resta-incertezza/. Acesso em: 31 jul. 2026. WINENEWS. Export vino Dop, nel primo quadrimestre 2026 Italia a 1,5 miliardi di euro (-6,2% sul 2025). 30 jul. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/export-vino-dop-nel-primo-quadrimestre-2026-italia-a-15-miliardi-di-euro-62-sul-2025_598080/. Acesso em: 31 jul. 2026.
A Itália parou de estimar a safra
Assoenologi e Uiv não vão mais divulgar estimativa de volume antes do fim da vindima. Só dado fechado, depois da colheita. A Coldiretti topou.
A justificativa é direta e meio constrangedora: o clima virou tão instável que projeção feita em agosto não sobrevive até outubro. A Itália copiou a França nisso. As duas entidades ainda pediram para antecipar a declaração oficial de colheita para meados de novembro.
Parece burocracia. Mexe com quem compra. Aquele número de “a Itália vai produzir X milhões de hectolitros” saía todo agosto e mexia com preço de uva, com contrato, com a cabeça do importador. Sai do calendário agora, e quem usava ele pra se posicionar vai ter que decidir no escuro.
Fonte: WINENEWS. Assoenologi & Uiv: “no previsioni, ma dati a fine vendemmia”. Coldiretti “concorde”. 29 jul. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/assoenologi-uiv-no-previsioni-ma-dati-a-fine-vendemmia-coldiretti-concorde_598027/. Acesso em: 31 jul. 2026.
Tinto gelado, com licença histórica
Em Rimini estão promovendo o “Sangiovese brinato”: Sangiovese servido a 11 °C, gelado a ponto de embaçar a garrafa.
Antes que alguém torça o nariz — não é invenção de agência. É a recuperação de um hábito dos pescadores da Romagna, que afundavam a garrafa na água do mar pra refrescar e puxavam de volta embaçada, brinata. Massimo Lorenzi, coordenador da denominação, resumiu certeiro: não é modismo, é outro jeito de contar uma história que já é deles.
Tem uma lição aí que vale pro Brasil. A gente vive discutindo como atrair quem não bebe vinho, e a resposta quase sempre é inventar alguma coisa nova: lata, drink, rótulo com desenho. Rimini foi no arquivo. Achou um gesto antigo que responde exatamente ao que o consumidor de hoje pede (leve, gelado, coisa de verão) e não precisou inventar nada. Quantos hábitos assim a gente jogou fora achando que era coisa de gente simples?
Fonte: WINENEWS. Innovare guardando al passato: la Rimini Doc punta sul “Sangiovese brinato”. 31 jul. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/innovare-guardando-al-passato-la-rimini-doc-punta-sul-sangiovese-brinato_598234/. Acesso em: 31 jul. 2026.
Emidio Pepe (1932–2026)
Morreu em 28 de julho, aos 94 anos, em Torano Nuovo, província de Teramo. Fez vinho no Abruzzo por sessenta anos e não mudou de método uma vez sequer.
Uva pisada com o pé. Sem barrica, sem levedura selecionada, e — a parte que sempre me impressionou mais — a família decantava as garrafas velhas à mão, uma por uma, pra tirar o depósito antes de despachar. Sessenta anos fazendo isso enquanto o resto do mundo do vinho corria atrás de extração, madeira nova e ponto de crítico.
O resultado é que Emidio Pepe virou uma das poucas provas vivas de uma tese difícil de defender: Montepulciano d’Abruzzo e Trebbiano d’Abruzzo envelhecem, e envelhecem bem. Não é detalhe pequeno. O Montepulciano carrega há décadas a fama de tinto simpático de cantina, generoso, sem futuro nenhum. Pepe passou a vida mostrando o contrário, e é justamente por isso que ele está entre os produtores de referência do Abruzzo.
Fontes: WINENEWS. L’Abruzzo del vino saluta uno dei pionieri del Montepulciano e del Trebbiano, Emidio Pepe. 28 jul. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/labruzzo-del-vino-saluta-uno-dei-pionieri-del-montepulciano-e-del-trebbiano-emidio-pepe_597934/. Acesso em: 31 jul. 2026. INTRAVINO. 1932-2026, quello che ci lascia Emidio Pepe. 28 jul. 2026. Disponível em: https://www.intravino.com/primo-piano/1932-2026-quello-che-ci-lascia-emidio-pepe/. Acesso em: 31 jul. 2026. D’AGATA, Ian. Italy’s Native Wine Grape Terroirs. Berkeley: University of California Press, 2019. MILLON, Marc. Italy in a Wineglass. Londres: Hurst, 2024.
É isso por essa semana. Comente conosco se alguma dessas pautas te interessou mais que as outras — ajuda a calibrar o que vem por aí.


