Publicado originalmente em beboitalia.com.
Em 31 de julho as adegas italianas tinham 42,6 milhões de hectolitros de vinho parado. Seis vírgula nove por cento a mais que no ano passado. Se você preferir a conta em garrafas (e eu prefiro, porque hectolitro não cabe na cabeça de ninguém), são 5,7 bilhões delas, esperando alguém abrir.
Segura esse número, porque ele explica quase tudo que veio depois.
E não é vinho ruim esquecido num canto de galpão. O Norte concentra 55,9% do estoque com o Veneto na frente, o Prosecco DOC sozinho responde por 9,4% (3,2 milhões de hectolitros) e logo atrás vêm os IGT toscanos e apulianos, o Chianti DOCG, o Montepulciano d’Abruzzo. Quer dizer: quem está engasgado é o coração comercial da Itália.
Quem vai resolver isso?
Lamberto Frescobaldi passou anos dizendo que arrancar vinhedo não é solução. Nesta semana ele mudou de posição, e a mudança pesa: Frescobaldi preside a Unione Italiana Vini. Ele aceita o arranquio. Com uma condição: que venha junto um plano B para quem vive daquela uva.
A Itália já abandona 56 mil hectares agrícolas por ano. Tirar a vinha de uma comunidade rural sem oferecer nada no lugar não reduz produção, apenas antecipa o esvaziamento do vilarejo. Frescobaldi pede atenção especial à viticultura de encosta e de montanha. É a mais frágil economicamente e, curiosamente, a que mais interessa a quem gosta de vinho.
No Senado, Gian Marco Centinaio escreveu a Lollobrigida propondo três medidas: liberar autorização de plantio só onde a denominação realmente cresce, facilitar que empresa ativa absorva vinhedo abandonado, alinhar produção à demanda. Fora do papel ele foi mais franco: se dependesse dele, teria travado novos plantios faz tempo, já que o mundo inteiro subsidia arranquio enquanto a Itália segue autorizando plantio, nas palavras dele, “sem lógica”.
Aí a Winemag publicou um editorial com o título mais honesto da semana: o que assusta mais, a crise do vinho ou quem deveria resolvê-la? Davide Bortone alinha os números (estoque recorde, exportação em queda, consumo interno menor) e argumenta que o problema de fundo é geracional. Quem decide hoje se formou num mundo em que produzir mais era, por definição, ir bem.
E ele traz um dado que eu não conhecia: uma garrafa em cada cinco é desclassificada. Uma em cinco. Foram 6,6 milhões de hectolitros rebaixados em 2025 e 516 milhões de euros que evaporaram no caminho, porque um quinto da produção italiana nasce com uma denominação no papel e chega ao mercado com outra.
Então a pergunta que fica não é se sobra vinho. Sobra, o dado está aí. A pergunta é outra: sobra vinho ou sobra denominação? Quantas DOC existem porque o mercado pediu, e quantas existem porque alguém, em algum momento, achou que ter uma DOC era em si um ativo? Quem faz essa conta? E quem tem coragem de levar o resultado para uma assembleia de consórcio? Cortar rendimento resolve o sintoma desta safra. E depois?
O Brasil comprando na contramão
Enquanto isso, nós. O Brasil importou 234,3 milhões de euros em vinho no primeiro semestre: alta de 5,9% em valor e de 9,1% em volume, 79,4 milhões de litros. Num ano em que quase todo mercado relevante encolheu, o brasileiro cresceu nos dois eixos.
O Chile lidera com folga: 93 milhões de euros e 39,2 milhões de litros, quase metade de tudo que entra. Depois vêm Argentina (39,9 milhões), Portugal (36,6), França (27,5) e a Itália, em quinto, com 19,7 milhões e alta de 7,2%. Quinto lugar. Só que em litros a Itália sobe para o terceiro posto, 4,8 milhões, à frente de Espanha e França.
Divida uma coisa pela outra e a foto fica bem mais interessante. O litro chileno entra a 2,37 euros, o argentino a 2,96, o português a 2,77, e a média do mercado brasileiro fecha em 2,95, o que já diz bastante sobre o tipo de vinho que desembarca aqui em volume. O litro italiano entra a 4,10. Trinta e nove por cento acima dessa média e quase o dobro do que o chileno consegue cobrar, com a França sozinha lá no alto (8,87) vendendo meros 3,1 milhões de litros.
Ou seja: o italiano não briga por volume aqui, e talvez nem devesse. Ele ocupa a faixa que sobrou entre o vinho de todo dia e o vinho de ocasião: 6,4 milhões de garrafas num semestre, a um preço que o chileno não consegue praticar e que o francês já abandonou. É a posição mais confortável da tabela, e é dela que a Itália cresce 7,2% num ano ruim.
A vindima que começou cedo (de novo)
A colheita italiana antecipou entre 7 e 14 dias na maior parte do país. Alto Adige começa por volta de 20 de agosto com uva sadia, o Trentino promete safra concentrada e com acidez preservada, Franciacorta e Lombardia já colhem e estrearam vindima noturna, e só o Veneto manteve o calendário de sempre no Prosecco. Na Toscana o quadro se divide, e a Maremma antecipou duas semanas com indicadores que os produtores chamam de muito positivos. Do outro lado do continente, o Comité Champagne abriu a colheita em 8 de agosto. Precocidade recorde.
Mas o texto que vale a leitura desta semana é o de Bortone explicando por que isso acontece, e ele tira o foco de onde todo mundo coloca. E o vilão, diz ele, não é o calor do meio-dia. É a noite.
A videira respira depois que o sol se põe, e nessa respiração ela queima ácido málico. Noite fria segura esse consumo. Noite quente acelera. O resultado é uma uva que ganha açúcar depressa e perde acidez mais depressa ainda: o refratômetro manda colher enquanto o tanino ainda está verde e o aroma não chegou. Maturação técnica e maturação fenólica descolam uma da outra.
Por isso tanta colheita noturna neste ano. Só que colher de madrugada preserva a uva no transporte e não devolve as noites frescas que faltaram. Como escreveu Bortone, é uma boa geladeira logística, não uma máquina do tempo.
O território vende mais que a marca
Fecho com a entrevista que mais me interessou. Mauro Rosati, da Fondazione Qualivita, lançou La Filosofia della Dop Economy e conversou com a Wine Meridian sobre um número que deveria estar tatuado em toda sala de consórcio: 70% do valor do vinho italiano vem de DOP e IGP.
Setenta por cento. E ainda assim, diz Rosati, os consórcios têm governança fraca e os produtores grandes puxam para o individualismo, cada um cuidando da própria marca como se a denominação fosse cenário, e não ativo. A proposta dele tem um nome meio feio e uma ideia boa: coopetição. Competir e colaborar ao mesmo tempo, porque território vende mais que marca isolada.
Sobre enoturismo ele solta um aviso que muita vinícola brasileira também precisa ouvir: a visita multiplica o valor de uma denominação forte, mas não substitui denominação nenhuma. Denominação em declínio não é salva por porteira aberta e taça na varanda.
Como educador de vinhos italianos, sempre lembro meus alunos em aula que a despeito de sempre levar mais em consideraçao produtor que apelacao, no fim a DOCG no rótulo é um contrato coletivo, não um selo decorativo. Ver o argumento vindo de dentro do sistema italiano, e com número em cima, é outro peso. Vale um texto só sobre isso, e eu pretendo escrever em breve.
Por essa semana é isso.
Alla prossima!
Fontes
WINENEWS. “Cantina Italia”, giacenze di vino ancora in surplus sul 2025: 42,6 milioni di ettolitri (+6,9%). 11 ago. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/cantina-italia-giacenze-di-vino-ancora-in-surplus-sul-2025-426-milioni-di-ettolitri-69_599035/. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINENEWS. Lamberto Frescobaldi, presidente Unione Italiana Vini (Uiv), apre agli estirpi dei vigneti. 11 ago. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/lamberto-frescobaldi-presidente-unione-italiana-vini-uiv-apre-agli-estirpi-dei-vigneti_599043/. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINEMAG. Crisi vino, la ricetta (in tre mosse) di Centinaio: «Ho scritto a Lollobrigida». 09 ago. 2026. Disponível em: https://www.winemag.it/crisi-vino-la-ricetta-in-tre-mosse-di-centinaio-ho-scritto-a-lollobrigida/. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINEMAG. Fa più paura la crisi del vino o chi la deve risolvere? 14 ago. 2026. Disponível em: https://www.winemag.it/fa-piu-paura-la-crisi-del-vino-o-chi-la-deve-risolvere/. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINENEWS. Brasile, sale l’import di vino nel primo semestre 2026 (+5,9%). Bene l’Italia. 13 ago. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/brasile-sale-limport-di-vino-2433-milioni-di-euro-nel-primo-semestre-2026-59-bene-litalia_599192/. Acesso em: 14 ago. 2026.
VINETUR. Brazil increased wine imports 9.1% in the first half of 2026. 14 ago. 2026. Disponível em: https://www.vinetur.com/20260814105674/brazil-increased-wine-imports-91-in-the-first-half-of-2026.html. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINENEWS. Anticipate, attese, celebrative, notturne: cantine e consorzi raccontano le tante vendemmie d’Italia. 10 ago. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/anticipate-attese-celebrative-notturne-cantine-e-consorzi-raccontano-le-tante-vendemmie-ditalia_598963/. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINEMAG. Le notti bollenti… dell’uva. La vendemmia anticipata, spiegata bene. 10 ago. 2026. Disponível em: https://www.winemag.it/le-notti-bollenti-delluva-la-vendemmia-anticipata-2026-spiegata-bene/. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINENEWS. Champagne, vendemmia pronta al decollo: una “precocità” da record a causa delle alte temperature. 13 ago. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/champagne-vendemmia-pronta-al-decollo-una-precocita-da-record-a-causa-delle-alte-temperature_599229/. Acesso em: 14 ago. 2026.
WINE MERIDIAN. Competere insieme: la lezione della DOP Economy al mondo del vino. 12 ago. 2026. Disponível em: https://www.winemeridian.com/approfondimenti/dop-economy-mauro-rosati/. Acesso em: 14 ago. 2026.
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