Publicado originalmente em beboitalia.com.
Toda semana, um resumo direto do que rolou no vinho italiano. Edição Nº 006, semana de 11 a 18 de setembro de 2026.
Julho trouxe o primeiro respiro nas vendas pros Estados Unidos, e mesmo assim o semestre fechou no vermelho. A edição começa nessa conta. Depois a Valtellina propõe subir a montanha, o Barolo colhe e apresenta safra ao mesmo tempo, e a BolognaFiere compra um pedaço de quem dá nota pro vinho italiano.
O semestre fechou no vermelho, mas julho deu um respiro nos EUA
Julho foi bom. O semestre, não. A exportação de vinho italiano fechou o primeiro semestre de 2026 em 3,6 bilhões de euros, 6,2% abaixo de 2025, com 989,6 milhões de litros embarcados (4% a menos). O preço médio também escorregou 2,3%. Menos e mais barato, na mesma conta.
Os Estados Unidos, maior comprador de longe, levaram 849 milhões de euros: 14,1% a menos. Alemanha (543,5 milhões) caiu 6,7%, Reino Unido (345,5 milhões) 6,6%, Suíça 10,9%, Bélgica 11,4%. Do outro lado da tabela ficaram a Rússia (+15,7%), a China (+19,8%) e o Brasil, com +8,1%. Cresce, e bonito. Mas repara na escala: 20,1 milhões de euros, e os americanos compram mais de 40 vezes o que a gente compra, então crescer 8% em cima disso é só começo de conversa.
Aí veio julho. As vendas pros EUA subiram 10% em valor (e 1,3% em volume) na comparação com julho do ano passado, mas o acumulado dos sete meses segue 11% abaixo. Paolo Castelletti, secretário-geral da Unione Italiana Vini (UIV), puxou o freio de mão: é cedo pra falar em inversão de tendência, e estar do outro lado do Atlântico fica ainda mais importante. Carlo Flamini, do observatório da UIV, descreve um mercado em “profunda transformação”, espremido entre tarifa, dólar fraco e consumo em queda. Pende ainda uma investigação sobre “overcapacity”, e ela pode render tarifa nova em cima da que já existe.
Por dentro da Itália, o mapa também não é uniforme. O Vêneto segue líder (1,3 bilhão de euros) e perdeu 8,4%. O Piemonte, segundo colocado (566,9 milhões), foi o único do pódio no azul: +2,4%. Toscana, terceira, 543,6 milhões, caiu 7,4%. Emilia-Romagna (+5,6%) e Puglia (+6%) também cresceram. Já o Trentino-Alto Adige, entre as dez maiores, apanhou mais que qualquer outra: 12,2%. E só as três primeiras regiões respondem por uns 67% do que a Itália exporta, algo perto de 2,4 bilhões de euros.
Dois terços da conta, três endereços.
Fontes: WINENEWS. Non accelera l’export del vino italiano: nel primo semestre a 3,6 miliardi di euro (-6,2% sul 2025). 11 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/non-accelera-lexport-del-vino-italiano-nel-primo-semestre-a-36-miliardi-di-euro-62-sul-2025_601458/. Acesso em: 18 set. 2026. WINE MERIDIAN. Vino italiano, l’export verso gli Usa torna a crescere a luglio. 18 set. 2026. Disponível em: https://www.winemeridian.com/news/export-vino-italiano-usa-luglio-2026-ripresa/. Acesso em: 18 set. 2026. WINENEWS. Export vino italiano nel primo semestre 2026, Veneto n. 1, cresce il Piemonte, segue la Toscana. 11 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/export-vino-italiano-nel-primo-trimestre-2026-veneto-n-1-cresce-il-piemonte-segue-la-toscana_601423/. Acesso em: 18 set. 2026.
A Valtellina quer subir a montanha
O Consorzio dei Vini di Valtellina e a Fondazione Provinea propuseram mudar o disciplinare da Valtellina Superiore DOCG e criar quatro sub-zonas novas, levando o total de cinco para nove. As cinco de hoje são Maroggia, Sassella, Grumello, Inferno e Valgella (a Maroggia, a menor, só foi reconhecida em 2002). As quatro novas ainda não têm nome nas fontes que eu li.
Tem também a altitude. Hoje são cerca de 750 hectares de vinhedo, que chegam a 800 metros. A proposta mira o teto da área do Rosso di Valtellina DOC, fixado em uns 700 metros, e usa fotografias de 1975 como prova de que a vinha já tocou os 1.000. No total, a superfície cresceria 200 hectares, sem mexer nas áreas que existem. O projeto vem de dois anos de estudo, segundo Marco Fay, produtor e conselheiro que o coordena, e agora está sendo examinado em Roma.
Dá vontade de ler isso como mudança climática empurrando a vinha montanha acima. O argumento do texto é outro, e é história: a foto de 1975 mostra vinha onde o disciplinare de hoje não deixa. Mesmo assim, quem convive com vinho de altitude (a Serra Catarinense é o assunto do meu livro) levanta a orelha quando a altitude entra em texto legal de uma denominação histórica.
Fonte: WINENEWS. Valtellina del vino: maggior definizione territoriale, nuove sottozone e vigneti più in alto. 18 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/valtellina-del-vino-maggior-definizione-territoriale-nuove-sottozone-e-vigneti-piu-in-alto_601965/. Acesso em: 18 set. 2026.
Barolo colhe a safra nova enquanto apresenta a 2023
O Piemonte vive dois calendários ao mesmo tempo. Na quinta, 10 de setembro, cortaram simbolicamente os primeiros cachos de Nebbiolo em Cannubi, em Barolo, com falas do ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, do presidente do consórcio, Sergio Germano, e do presidente da região, Alberto Cirio. A colheita começou antes do calendário habitual, e com o clima cada vez mais imprevisível isso já não surpreende ninguém. A gente viu na #004 Colli Tortonesi, Cavit e Montalcino largando cedo. Agora chegou no Barolo.
Quatro dias depois, o mesmo Barolo estava na vitrine. Segunda, 14 de setembro, quinta edição do Serralunga Day, no Villaggio Narrante de Fontanafredda. A estreia da vez: a primeira Menzione Comunale do Barolo de Serralunga d’Alba, safra 2023, ou seja, a comuna no rótulo (as MGAs apontam vinhedos dentro dela). Gabriele Gorelli, Master of Wine, conduziu a degustação às cegas e descreveu a 2023 com “freschezza inaspettata”, frescor inesperado, equilíbrio, sapidez e taninos “materici e croccanti”. Sergio Germano disse que as menções comunais expressam de modo profundo a territorialidade.
O outro protagonista foi o Brunello. Os consórcios de Barolo e de Montalcino começaram a colaborar na edição passada e consolidaram a parceria agora, com uma masterclass de 14 Barolo de Serralunga e 14 Brunello sob o título “Il potenziale del tempo: due rette parallele che con il tempo convergono”. Duas retas paralelas que, com o tempo, convergem. Giacomo Bartolommei, presidente do consórcio do Brunello, falou em reforçar a capacidade das grandes denominações de se contarem nos mercados internacionais. Pro portfolio tasting vieram uns 400 restauradores e apaixonados.
O Intravino tem outra leitura da mesma comparação. Provou 25 Barolo 2023 às cegas e saiu com uma tese que vai dar discussão: o Barolo envelhece com mais elegância que o Brunello, e a mão do produtor pesa mais que o terroir sozinho. Retas que convergem ou Barolo na frente? Eu não fecho essa conta com uma safra tão nova.
Na mesma toada, Alessandro Morichetti escreveu, também no Intravino, sobre o que as degustações não contam. A educação do vinho, diz ele, fala demais de terroir e de menos do fator humano. Pra entender o golpe de um tenista dá pra olhar só a quadra? Não dá, tem que olhar o tenista. É um ponto cego do ensino de vinho, certificações incluídas. Dou aula de terroir e o fator humano entra, admito, quase de tabela. Fica a nota.
Fontes: WINENEWS. La vendemmia è iniziata, ma per il Barolo è tempo di presentare anche le nuove annate. 15 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/la-vendemmia-e-iniziata-ma-per-il-barolo-e-tempo-di-presentare-anche-le-nuove-annate_601704/. Acesso em: 18 set. 2026. WINENEWS. Anche a Barolo la raccolta è anticipata, e ieri sono partite le operazioni di vendemmia. 11 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/anche-a-barolo-la-raccolta-e-anticipata-e-ieri-sono-partite-le-operazioni-di-vendemmia_601515/. Acesso em: 18 set. 2026. OSCARWINE. Presentata l’annata 2023 del Barolo al Serralunga Day. 15 set. 2026. Disponível em: https://www.oscarwine.it/presentata-lannata-2023-del-barolo-al-serralunga-day/. Acesso em: 18 set. 2026. INTRAVINO. Ancora dal Serralunga Day: annata 2023 Barolo vs Brunello. 18 set. 2026. Disponível em: https://www.intravino.com/primo-piano/ancora-dal-serralunga-day-annata-2023-barolo-vs-brunello-convergenzedifferenze-e-riflessioni-varie/. Acesso em: 18 set. 2026. INTRAVINO. Serralunga Day 2026 e qualcosa di fondamentale che le degustazioni non dicono. 17 set. 2026. Disponível em: https://www.intravino.com/primo-piano/serralunga-day-2026-e-qualcosa-di-fondamentale-che-le-degustazioni-non-dicono/. Acesso em: 18 set. 2026.
BolognaFiere entra no capital do Gambero Rosso
5,7 milhões de euros. Foi o preço da entrada da BolognaFiere na Gambero Rosso: 49,9% da Gambero Rosso Holding, com a Class Editori ficando com os outros 50,1%. A Class conferiu à holding mais de 7,3 milhões de ações (51,17% do capital) e mantém 10% direto; as partes têm opções de compra e venda a partir de 2028. Três dos doze conselheiros serão indicados pela BolognaFiere, um deles como vice-presidente.
Gianpiero Calzolari, presidente da BolognaFiere, chamou a operação de “investimento estratégico” pra reforçar a presença internacional das excelências italianas. Paolo Panerai, da Class, falou em “passo importante”. A Class garante continuidade editorial, sem mudança no posicionamento nem nas atividades de avaliação e certificação de vinhos e produtos alimentares. A Gambero Rosso faturou cerca de 15 milhões de euros em 2025.
A pergunta que fica é antiga e incômoda: quem organiza a feira onde o vinho se apresenta pode ser sócio de quem dá nota nele? A BolognaFiere já toca eventos como a Slow Wine Fair. Nada no texto indica que a avaliação vá mudar. Mas o desenho está posto: quem vende o palco ganhou cadeira no conselho de quem escreve a crítica.
Fonte: WINENEWS. Operazione da 5,7 milioni di euro. BolognaFiere entra nel capitale di Gambero Rosso. 13 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/operazione-da-57-milioni-di-euro-bolognafiere-entra-nel-capitale-di-gambero-rosso_601589/. Acesso em: 18 set. 2026.
É isso por essa edição.


