Publicado originalmente em beboitalia.com.
Toda semana, um resumo direto do que rolou no vinho italiano. Edição Nº 007, semana de 18 a 25 de setembro de 2026.
Semana de dinheiro público. Roma assinou o decreto que paga metade da conta de quem trouxer gente pra dentro da cantina, e saiu a lista de quem leva a verba europeia de promoção fora da Europa. No meio disso, um número dos Estados Unidos explica a pressa: quem está pagando a tarifa americana é o produtor italiano. E o Merano WineFestival vem bater aqui na porta em São Paulo daqui a dez dias.
Roma paga metade da conta pra receber gente na cantina
Na quarta, 23 de setembro, o ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, assinou o decreto que coloca em prática, na Itália, a parte de enoturismo da reforma da PAC, a Política Agrícola Comum europeia, que os italianos chamam de “Pacchetto Vino”. Em português claro: dinheiro público pra levar gente até o vinhedo. O contributo chega a 50% dos custos elegíveis e cobre ações de promoção no território, visitas a cantinas e vinhedos, eventos, feiras e exposições.
Repara em quem pode pedir. Consórcios de tutela, organizações de produtores, interprofissionais e (novidade da regra europeia) organizações profissionais que representam a produção. A cantina sozinha não aparece na lista, então o dinheiro passa por consórcio e associação. O prazo padrão vai ser 30 de outubro de cada ano, com a Agea e as regiões; na primeira campanha, a 2026/2027, as candidaturas vão até 15 de dezembro de 2026. Nenhuma das duas fontes informa o tamanho do cofre.
O Movimento Turismo del Vino, que reúne mais de 700 cantinas, aplaudiu. A presidente, Violante Gardini Cinelli Colombini, chamou o decreto de “riconoscimento importante” do peso que o turismo ganhou pras vinícolas, e já pediu a próxima rodada: regra clara de como as associações entram na fila, ferramentas digitais, coleta de dados e formação pra quem recebe o visitante.
Faz quantas edições que a crise de mercado abre esta newsletter? Perdi a conta. A resposta de Roma, pelo menos desta vez, é coerente: se a garrafa viaja cada vez menos, que o bebedor viaje até ela. Quem já fez visita guiada em cantina italiana sabe que a experiência vende mais vinho que qualquer ficha técnica e o comprador sai de lá com a caixa no porta-malas e o nome do produtor na cabeça. Agora metade do custo dessa experiência pode sair do bolso público.
Fontes: WINENEWS. Il Ministro dell’Agricoltura Lollobrigida: firmato il decreto per la promozione del turismo del vino. 23 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/il-ministro-dellagricoltura-lollobrigida-firmato-il-decreto-per-la-promozione-del-turismo-del-vino_602347/. Acesso em: 25 set. 2026. VINI E VINO. MTV: Bene il decreto MASAF, ora regole chiare per coinvolgere anche le associazioni che rappresentano le cantine. 25 set. 2026. Disponível em: https://www.vinievino.it/parliamo-di-vino/turismo-del-vino/mtv-bene-il-decreto-masaf-ora-regole-chiare-per-coinvolgere-anche-le-associazioni-che-rappresentano-le-cantine-4819.html. Acesso em: 25 set. 2026.
Nos EUA, quem está pagando a tarifa é o produtor
Durante anos o mercado americano foi o cliente dos sonhos do vinho italiano: grande, fiel e disposto a pagar preço de rótulo premium. Esse cliente mudou de humor. Em 7 de agosto de 2025, o vinho europeu passou a pagar 15% de tarifa pra entrar nos Estados Unidos. A base legal já caiu e foi trocada duas vezes desde então (a Suprema Corte americana derrubou as tarifas originais em fevereiro, e hoje o vinho europeu paga 10%), mas o Wine Meridian, com dados da alfândega americana compilados pela interprofissional espanhola OIVE, mostra pra onde foi o custo no primeiro semestre.
As importações americanas de vinho europeu caíram 25,2% em valor no primeiro semestre de 2026, uma perda de 816,4 milhões de euros, e 16,8% em volume. A Itália vendeu 790,8 milhões de euros (25% a menos), com 170,2 milhões de litros (9,8% a menos). Agora compara as duas quedas: o preço médio do vinho italiano despencou 16,9%, quase o dobro do tombo no volume. O importador americano não repassou a tarifa pra gôndola. Negociou pra baixo com o fornecedor, e a margem do produtor europeu é que absorveu o golpe.
(Se o número parece diferente do que saiu na #006, é porque a base é outra: lá era o Istat medindo a saída da Itália, aqui é a alfândega americana medindo a chegada. A direção é a mesma.)
Não é sazonal. O próprio texto fala em contração estrutural. E quando o cliente que pagava melhor passa a espremer a margem, a pergunta natural pra qualquer vinícola é: quem mais compra? A próxima seção mostra que o dinheiro público já está trabalhando nessa resposta.
Fontes: WINE MERIDIAN. Stati Uniti, import vino UE: i dazi determinano contrazione del 25%. 18 set. 2026. Disponível em: https://www.winemeridian.com/mercati/importazioni-vino-usa-primo-semestre-2026-crollo/. Acesso em: 25 set. 2026. WINENEWS. Usa e nuovi dazi, per il vino italiano (ed Ue) non cambia nulla. 27 jul. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/usa-e-nuovi-dazi-per-il-vino-italiano-ed-ue-non-cambia-nulla-lanalisi-us-wine-trade-alliance_597820/. Acesso em: 27 set. 2026.
Pra onde vai o dinheiro europeu de promoção
Saiu a graduatoria nacional da OCM Promozione, a verba europeia que banca a promoção de vinho em países fora da União Europeia. Pelo decreto de 18 de setembro (a lista ainda é provisória e depende dos controles da AGEA), 15 projetos entraram na campanha 2026/2027 e recebem 28,5 milhões de euros da cota nacional, que alavancam 64,9 milhões em ações nos chamados Países Terceiros. A diferença é contrapartida: o fundo cobre até metade do projeto e a empresa põe o resto (e nem sai tudo de uma vez: uns 22,5 milhões vêm como adiantamento neste ano, o restante só depois da prestação de contas). Por fora dessa lista ficam uns 70 milhões administrados pelas regiões.
Quem lidera a fila? Zonin e Istituto Grandi Marchi, com cerca de 3,98 milhões de euros cada, seguidos da Nosio (o grupo Mezzacorona), com 3,9 milhões. Depois vêm Gruppo Italiano Vini, Fantini, Consorzio del Prosecco DOC, Herita Marzotto e Frescobaldi, todos na casa dos 2 milhões. Sim, a mesma Zonin que na #001 corria atrás de investidor depois de perder faturamento. Crise e verba de promoção andam de mãos dadas.
A Sicília fez a mesma conta em escala regional. Aprovou 11 projetos que dividem mais de 4 milhões de euros, de um envelope de 6 milhões, com contributo a fundo perdido de até 50% pra feiras, missões comerciais, estudos de mercado e publicidade fora da Europa. O assessor de Agricultura, Luca Sammartino, disse que a ideia é internacionalizar as cantinas e fortalecer a marca Sicília.
Nenhum dos dois textos diz pra quais países esse dinheiro vai. Fui conferir no próprio decreto, e ele também não diz. O que dá pra saber é que o edital classifica o Brasil como mercado emergente, o que rende pontos extras a quem planeja vir pra cá. E as listas regionais da Sicília e da Campânia, que publicam o destino de cada projeto, já trouxeram o Brasil escrito com nome e valor, a Campânia inclusive na campanha atual. E é justamente essa a pergunta que interessa a quem bebe vinho italiano no Brasil. Vou pesquisar esse mecanismo para um post dedicado, em breve: de onde sai o dinheiro, quem decide pra onde ele vai e o que isso antecipa sobre a estratégia das vinícolas italianas aqui no Brasil.
Fontes: WINENEWS. Ocm Promozione, ecco la graduatoria nazionale: 28,5 milioni di euro di contributo (su 64,9 di spesa). 21 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/ocm-promozione-ecco-la-graduatoria-nazionale-285-milioni-di-euro-di-contributo-su-649-di-spesa_602139/. Acesso em: 25 set. 2026. CRONACHE DI GUSTO. Vino siciliano, 11 progetti e 4 milioni per spingere l’export fuori dall’Europa. 21 set. 2026. Disponível em: https://www.cronachedigusto.it/vino-e-dintorni/vino-siciliano-11-progetti-e-4-milioni-per-spingere-lexport-fuori-dalleuropa/. Acesso em: 25 set. 2026.
O Merano WineFestival desembarca em São Paulo
De 6 a 8 de outubro, a segunda edição do Merano WineFestival Brasil acontece dentro da ProWine São Paulo, no Expo Center Norte. Helmuth Köcher, que fundou o festival em Merano há 35 anos, traz dez cantinas selecionadas pelo The WineHunter: Cascinassa, Nino Costa e Sergio Gozzelino (Piemonte), La Gerla, Poggio Capponi e San Luciano (Toscana), La Romiglia (Vêneto), Tenute Ballasanti (Sicília), Tenute San Marco (Lácio) e Villa Matilde (Campânia). No Brasil, quem apresenta é a KDS Food & Wines International, com estande no Pavilhão Azul, H10–I14, segundo a KDS.
Da lista, a que eu marcaria no mapa é a Villa Matilde. Nos anos 1960, o advogado napolitano Francesco Avallone, apaixonado por história e pelos autores latinos que cantavam o Falerno (Plínio, Virgílio, Marcial, Horácio), decidiu procurar o vinho mais famoso da Roma antiga. Foram cerca de dez anos de pesquisa com a Faculdade de Agronomia da Universidade de Nápoles até achar, no antigo Ager Falernus, entre o Monte Massico e o vulcão extinto de Roccamonfina, os biótipos sobreviventes de Falanghina, Aglianico e Piedirosso. Daí saiu a Villa Matilde, em Cellole, na província de Caserta, e a casa virou referência do Falerno del Massico, DOC desde 1989, com o branco de Falanghina e o tinto à base de Aglianico e Piedirosso. Hoje quem toca são os filhos, com Maria Ida e Salvatore Avallone à frente. Não é todo dia que dá pra provar em São Paulo um vinho que nasceu de uma pesquisa arqueológica.
Agora, o número que sustenta a viagem. O festival diz que o vinho italiano cresceu mais de 20% no Brasil nos últimos três anos. O Brasil importa mais de 550 milhões de dólares de vinho por ano, e a Itália é só a quinta fornecedora em valor, atrás de Chile, Argentina, Portugal e França (em volume, sobe pra terceira). Espaço pra ocupar não falta. E a porta ficou mais larga: desde 1º de maio, com a aplicação provisória do acordo UE-Mercosul, o imposto de importação do vinho europeu caiu de 27% pra 24%, desce pra 21% em janeiro e zera em 2034.
O mesmo texto amarra vinho com turismo, e essa ponta liga com a primeira seção. Os brasileiros fizeram 1,4 milhão de chegadas e 3,8 milhões de pernoites na Itália em 2024, segundo o InfoMercatiEsteri, do Ministério das Relações Exteriores italiano, que projeta alta de 15% em 2026. Moram em São Paulo mais de 270 mil cidadãos italianos. A Itália está vendendo garrafa aqui e cantina lá, pro mesmo público.
Fontes: CORRIERE DEL VINO. 10 cantine italiane al Merano WineFestival Brasile. 18 set. 2026. Disponível em: https://corrieredelvino.it/news/eventi-news/10-cantine-italiane-al-merano-winefestival-brasile/. Acesso em: 25 set. 2026. WINENEWS. From wine to tourism, Brazil cheers to Italy: and Merano WineFestival flies to São Paulo. 18 set. 2026. Disponível em: https://winenews.it/en/from-wine-to-tourism-brazil-cheers-to-italy-and-merano-winefestival-flies-to-sao-paulo_602189/. Acesso em: 25 set. 2026. KDS FOOD & WINES INTERNATIONAL. Merano WineFestival Brasil na ProWine São Paulo. Set. 2026. MILLON, Marc. Italy in a Wineglass. 2024 (verbete Vigna Caracci, Villa Matilde). VILLA MATILDE AVALLONE. History. Disponível em:
https://en.villamatilde.it/
. Acesso em: 26 set. 2026. REGIONE CAMPANIA. Falerno del Massico DOC. Disponível em: https://agricoltura.regione.campania.it/viticoltura/falerno-massico.html. Acesso em: 26 set. 2026. WINENEWS. Brasile, sale l’import di vino: 243,3 milioni di euro nel primo semestre 2026 (+5,9%). Bene l’Italia. 13 ago. 2026. Disponível em: https://winenews.it/it/brasile-sale-limport-di-vino-2433-milioni-di-euro-nel-primo-semestre-2026-59-bene-litalia_599192/. Acesso em: 27 set. 2026. COMISSÃO EUROPEIA. EU-Mercosur interim trade agreement starts to provisionally apply. 30 abr. 2026. Disponível em: https://policy.trade.ec.europa.eu/news/eu-mercosur-interim-trade-agreement-starts-provisionally-apply-2026-04-30_en. Acesso em: 27 set. 2026. ECOMEX. Acordo UE-Mercosul: imposto do vinho europeu começa a cair nesta sexta e zera em 2034. 4 maio 2026. Disponível em: https://www.ecomex.com.br/acordo-ue-mercosul-imposto-do-vinho-europeu-comeca-a-cair/. Acesso em: 27 set. 2026.
A Sicília que o rótulo de supermercado não mostra
O Gambero Rosso publicou os Tre Bicchieri da Sicília na guia Vini d’Italia 2027 e são 31 vinhos, dois a mais que no ano passado, recorde da ilha. E, pela primeira vez, os brancos passaram os tintos. Só o Etna levou 12 prêmios, oito deles brancos (outra primeira vez) e quatro tintos. A Grillo emplacou cinco rótulos.
Se a sua imagem da Sicília ainda é Nero d’Avola em garrafa de supermercado, essa lista é um bom antídoto. E, mais interessante, ela passa do Etna também. Tem Grillo de todo canto (o Tasca d’Almerita de Mozia, o Kheirè Riserva da Tenuta Gorghi Tondi, o Trisole da Cantine Birgi, o Firma del Tempo da Cantine Fina, o Acini di Grillo da Possente). Tem Marsala Superiore Secco 2016 da Francesco Intorcia Heritage, lembrando que Marsala não é tempero de molho. Tem o Passito di Pantelleria Ben Ryè da Donnafugata, o Zibibbo seco da Barraco, dois Faro (Palari e Le Casematte) do cantinho de Messina e um Cerasuolo di Vittoria da Feudi del Pisciotto. O Nero d’Avola continua lá, com Duca Enrico, Saia da Feudo Maccari e o Santa Cecilia da Planeta, só que agora dividindo a mesa.
Pra mim a Sicília ainda é a região mais subestimada da Itália por quem bebe no Brasil. Ela faz branco de altitude vulcânica, branco de sal e vento, vinho licoroso de ilha e tinto de guarda, tudo no mesmo pedaço de terra. O Cronache di Gusto chamou a ilha de uma das realidades mais vitais e criativas do vinho italiano. Eu assino embaixo.
Fonte: CRONACHE DI GUSTO. Ecco i Tre Bicchieri Sicilia 2027 del Gambero Rosso. E i bianchi superano i rossi. 19 set. 2026. Disponível em: https://www.cronachedigusto.it/vino-e-dintorni/ecco-i-tre-bicchieri-sicilia-2027-del-gambero-rosso-e-i-bianchi-superano-i-rossi/. Acesso em: 25 set. 2026.
Agenda: o Rosso di Montalcino vai a Siena
Pra quem estiver na Toscana em outubro. Na sexta, 2 de outubro, a quinta edição do Red Montalcino sai do vilarejo pela primeira vez e ocupa o Palazzo delle Papesse, em Siena, com 62 produtores de Rosso di Montalcino, o irmão mais novo do Brunello. Organiza o Consorzio del Vino Brunello di Montalcino. A tarde (a partir das 15h) é só pra trade e imprensa; o público entra das 18h às 20h, com ingresso pago, e depois tem wine bar coletivo, comida e DJ no pátio até as 23h. Giacomo Bartolommei, presidente do consórcio, disse que a estreia em Siena abre “uma nova fase” do evento. Sair de casa pra achar público novo: parece que a lição da semana vale até pra Montalcino.
Fonte: CRONACHE DI GUSTO. Red Montalcino esce dal borgo e approda a Siena: 62 produttori per celebrare il Rosso. 22 set. 2026. Disponível em: https://www.cronachedigusto.it/vino-e-dintorni/red-montalcino-esce-dal-borgo-e-approda-a-siena-62-produttori-per-celebrare-il-rosso/. Acesso em: 25 set. 2026.
É isso por essa edição. Se for à ProWine e participar das masterclasses da Merano me conta o que provou. Até a próxima!


