Publicado originalmente em beboitalia.com.
Treze Nebbiolo italianos, dois brasileiros às cegas, um Barolo que apareceu de presente e um pódio dividido entre o norte e o sul.
Quatro dias de carro pelo Piemonte em abril. Roero, Carema, Gattinara, Boca, visitas marcadas com antecedência, uma rua em Carema que foi estreitando até eu achar que o carro ia ficar entalado ali para sempre (não ficou, mas foi por pouco). Voltei com garrafas na mala e uma tese na cabeça: a Nebbiolo tem vida inteligente fora de Barolo e Barbaresco.
Aí, no fim da noite, um amigo vira para mim e diz que o vinho preferido dele foi o Langhe Nebbiolo.
O único da mesa que vinha de La Morra, comuna do Barolo.
Tá, confesso que ri. Mas guardei a frase, porque ela resume melhor do que qualquer slide o que aconteceu na ITAstings #03, a terceira da série sobre o que um Master of Wine italiano chamou de italianità: Sangiovese na primeira, Nerello Mascalese na segunda e, agora, a Nebbiolo. Sem Barolo, sem Barbaresco. Ou quase sem, como você vai ver.
O primeiro slide da noite. De Carema à Valtellina, sem Barolo e sem Barbaresco (era o plano).
O que estava na mesa
O formato é o de sempre. Serve, cada um prova sozinho e calado, a turma conversa, e só depois entra a ficha técnica. A ordem não seguiu a viagem: o roteiro foi feito para a estrada, a ordem para o paladar.
MIRÚ Rossini · Colline Novaresi DOC Rosato 2023 · 13% · Vigna Vita
Nino Negri · Rosso di Valtellina DOC 2022 · 12,5% · Angeloni (Prime Trading)
Antoniolo Juvenia · Coste della Sesia DOC 2022 · 13,5% · Mistral
Muraje Sumié · Carema DOC 2022 · 13,5% · sem importador
Antoniotti · Bramaterra DOC 2021 · 13,5% · Vigna Vita
MIRÚ · Ghemme DOCG 2019 · 13% · Vigna Vita
Travaglini · Gattinara DOCG Riserva 2018 · 13,5% · World Wine
Antoniolo · Gattinara DOCG Riserva 2015 · 14% · Mistral
Le Piane · Boca DOC 2020 · 13,5% · sem importador
Nadia Curto · Langhe Nebbiolo DOC 2023 · 14% · sem importador
Malvirà S.S. Trinità · Roero DOCG Riserva 2020 · 14,5% · sem importador
Nino Negri · Valtellina Superiore DOCG Riserva 2018 · 13,5% · Angeloni (Prime Trading)
Nino Negri Sfursat Carlo Negri · Sforzato di Valtellina DOCG 2010 · 15,5% · Famiglia Martini
Mais dois extras brasileiros, depois da pausa: o Villa Francioni Agripina, de São Joaquim (SC), e o Ruiz Gastaldo Nevoeiro 2024, que o Flávio Melara trouxe e eu servi às cegas. E, de presente do Guilherme Costa, um Scarzello Barolo 2020, Barolo del Comune di Barolo DOCG, no fim. Planejei 14 vinhos e bebemos 16. Acontece nas melhores famílias.
A Spanna não pede licença
O Rossini abriu a noite e já desmontou uma expectativa. Rosado de Nebbiolo feito por sangria, com até 24 horas de contato com as cascas, e o pessoal estranhou: cor que engana, boca concentrada, acidez lá em cima e um tanininho que pega. Não é rosé de beira de piscina (piscine para os intimos..). Quem toma Provence em dupla numa tarde de sol vai tomar um susto.
Daí saiu a primeira conversa boa da noite: rosé envelhece? Em geral, não. Mas a pergunta certa é outra. Quanto álcool, acidez, tanino (e às vezes açúcar) aquele vinho tem para se proteger? E quanto de fruta fresca ainda resta para evoluir, em vez de só cansar? Esse Rossini segura mais que um rosé convencional, isso segura. Ganhar alguma coisa guardado é outra história.
O Rosso di Valtellina veio na sequência, fazendo o papel de vinho simples para beber cedo. E fez bem. Fruta logo de cara, que estica pouco, e aquele amargor fenólico no fim que eu considero quase uma marca registrada italiana. Às cegas, quando aparece esse final, pode chutar Itália sem medo. A ficha conta que a casa desengaça sem esmagar e deixa a fermentação começar dentro do bago, num efeito parecido com o da maceração carbônica. Custa uns R$ 220 e cai pela metade nas promoções do Angeloni. (Dica de quem já errou: não compre Rosso di Valtellina de safra velha. Ele foi feito para ser bebido jovem.)
Quando o produtor vale mais que a denominação
A taça 3 foi a que eu mais quis defender, pelo preço. O Juvenia é uva de Gattinara, de Valferana e Borelle, que a Antoniolo engarrafa como Coste della Sesia DOC, a denominação ampla que cobre a margem oeste do rio Sesia inteira. Cem por cento Nebbiolo, sem madeira, 12 meses em inox.
Mais intenso que os dois anteriores, tanino de Nebbiolo de verdade, fruta menos madura e um sabor que começa a ficar complexo. A lição prática que eu deixei para a turma: quando o rótulo diz Coste della Sesia, ou Colline Novaresi, olhe primeiro quem fez. Denominação guarda-chuva cobre de tudo. Com a Antoniolo atrás, é aposta segura, e melhor que muito Barbaresco genérico que se vende por aí pelo mesmo preço.
A Coste della Sesia DOC cobre a margem oeste do Sesia inteira. Mapa 3D: oraziocampoli.com, com as zonas oficiais da Regione Piemonte (CC BY 4.0).
Depois veio Carema, que para mim era a parte afetiva da noite. O Sumié é de um casal que recupera vinhas velhas em terraços de pedra, tudo em pérgola, com algo como 150 a 200 metros de desnível subidos e descidos a pé, em 1,3 hectare. A denominação inteira tem uns 18. E o nome do vinho é o nome de uma peça da pérgola: sumié é a vara mais forte, a que segura o peso na frente, apoiada no pilar de pedra. Quando fui pagar as garrafas, o produtor não quis cobrar. Pois é.
Carema em abril. Tudo pérgola, tudo terraço, tudo a pé.
Na taça, Nebbiolo mais delicado, fruta vermelha fresca, de lugar frio, e um tanino que alguém da mesa descreveu como textura de jeans: nem fino, nem áspero, com trama. Achei perfeito: tanino é tato, então descrever tanino com tecido faz todo sentido. E teve gente que estranhou, no bom sentido. Parecia outra uva, e foi um dos vinhos mais comentados depois.
O momento em que eu troquei as garrafas
Confissão número dois. Servi o Bramaterra apresentando como se fosse o Ghemme, e fui falando, falando, até achar o vinho estranho demais para o que eu estava dizendo. Parei, olhei a garrafa: “Esse aqui é o Bramaterra, eu inverti”. Culpa minha. Como a proposta da noite é ligar o que se sente na boca com o lugar, e não ler a ficha e concordar, o erro acabou servindo de teste. Ninguém tinha reclamado da ficha errada.
E a comparação é das boas. O Bramaterra da Antoniotti é o único dos dois com Croatina: 70% Nebbiolo, 20% Croatina, 7% Vespolina e 3% Uva Rara (que lá eles chamam de Bonarda Novarese, e que não tem nada a ver com a Bonarda Piemontese, outra uva). Cimento subterrâneo, pelo menos 30 meses em botti grandes. O Ghemme da MIRÚ fica do outro lado do Sesia, em solo glacial, quase plano perto do rio. Tanino mais fechado, acidez alta, menos corpo.
A dupla que eu troquei. Bramaterra de um lado do Sesia, Ghemme do outro.
Por que tão diferentes, se ficam a 20 minutos de carro um do outro? A explicação que eu dei na hora, e que mantenho: a textura do solo muda a drenagem, a drenagem muda a água disponível para a planta, e água mais ciclo é o que faz o tanino. Pórfiro vulcânico de um lado, sedimento glacial e fluvial do outro. Em geologia, o Sesia é uma fronteira de verdade.
Gattinara, ou o patamar de cima
Aqui a noite mudou de tom. O Travaglini 2018 chegou com nariz mais intenso, rosa aparecendo, e começou a discussão inevitável: dá para confundir com Barolo? Na rosa, quase. No tanino, não. O tanino de um Barolo de cru está em outra divisão, Champions League mesmo. Este era fechado, firme, mas sem aquela finura. (E um mea-culpa: a ficha na tela dizia “8 meses em garrafa”, e eu falei na hora que estava errado. Estava. São 36 meses em grandes barris de carvalho eslavo, uma parte separada em barrica usada, e mais 10 meses em garrafa. Já corrigi.)
Aí veio o Antoniolo Riserva 2015. A casa foi pioneira do vinho de vinhedo único no Alto Piemonte, em 1974, por conselho do Luigi Veronelli. E esse vinho não parece ter 11 anos. A sala inteira concordou que era outro patamar. Acho que a safra ajudou também (para mim, 2015 rendeu mais que 2018 por ali).
Os dois Gattinara. O 2015, à direita, ganhou a noite.
O Le Piane fechou o Alto Piemonte. Boca é a denominação mais alta da região, e o Christoph Künzli, suíço (na hora eu disse austríaco, perdão, Christoph), foi quem reacendeu Boca a partir de 1995. Ele também recuperou a maggiorina, a condução antiga em que três ou quatro plantas sobem juntas e abrem os braços numa espécie de estrela. Na noite eu disse que o vinho dessas vinhas fica fora da DOC por causa da condução. Errado. Fui conferir e o motivo é o corte: o Piane dele, de vinhas velhas em maggiorina a 450, 500 metros, é quase todo Croatina, com um pouco de Vespolina, e por isso sai como vino rosso, sem denominação nenhuma no rótulo (Way, 2024). O Boca da noite tem 85% Nebbiolo e 15% Vespolina, e dá para sentir a concentração de fruta que a Vespolina traz. Tanino diferente, menos fino que o dos dois Gattinara. Custa uns 65 euros na Itália e não tem importador aqui, o que, convenhamos, ajuda a explicar por quê.
E então voltamos para casa (da Nebbiolo)
Depois de nove taças do norte, desci para as Langhe. O Langhe Nebbiolo da Nadia Curto vem de La Morra, de uma vinicultora que aprendeu com o pai e com o tio, Elio Altare, um dos nomes da virada modernista do Barolo nos anos 1980. Maceração de sete dias, inox, botti de carvalho da Eslavônia. Tanino fininho, quase seda, ainda com muita fruta. A diferença para o Sumié e para o Juvenia apareceu sozinha, sem ninguém precisar explicar.
O Malvirà Trinità veio do outro lado do Tanaro, no Roero, a poucos quilômetros de Barbaresco e em outra geologia: areia, muita areia. Pelos 14,5% de álcool, esperava um vinho mais quente. Veio redondo, concentrado, sem aresta nenhuma. Uma das casas que mais me impressionaram na viagem, e a degustação que eles me serviram lá merecia um post só dela.
O Roero, do outro lado do Tanaro, colado em Barbaresco. Mapa 3D: oraziocampoli.com, com as zonas oficiais da Regione Piemonte (CC BY 4.0).
Quem vence uma noite dessas? Pela votação da turma:
Antoniolo, Gattinara DOCG Riserva 2015
Nadia Curto, Langhe Nebbiolo DOC 2023
Malvirà Trinità, Roero DOCG Riserva 2020
Segundo e terceiro lugar. Langhe e Roero, um de cada lado do Tanaro.
Fora do pódio, o Juvenia e o Bramaterra da Antoniotti receberam vários votos de “muito bom”, e o Sumié ficou como a grande surpresa. Mas o pódio é isto: um Gattinara no topo, e logo atrás dois vinhos do sul, das Langhe e do Roero. Fiz um giro inteiro pelo Alto Piemonte, trouxe garrafa na mala, e o pódio ficou dividido. Justo? Justíssimo. As outras denominações são lindas e diferentes, com produtores de régua altíssima. Mas onde a Nebbiolo nasce para Barolo e Barbaresco, o lugar se impõe, e não tem muito o que fazer. É como Pinot Noir na Borgonha (que, aliás, já está dificil para viajar).
A Nebbiolo viaja mal?
Essa era a pergunta escondida da noite. O Wojciech Bońkowski, MW polonês especialista em Piemonte, escreve que a Nebbiolo não gosta de viajar: existem postos isolados da uva mundo afora, mas os vinhos raramente chegam ao nível de um bom Barolo. A exceção discreta, para ele, é o Valle d’Aosta. Por isso o Carema estava ali, colado na divisa com Donnas.
E por isso os dois brasileiros.
Os dois brasileiros, no fim da noite: Nevoeiro, de Encruzilhada do Sul, e Agripina, de São Joaquim.
O Nevoeiro veio às cegas. Primeira pergunta que eu faço nessa hora: é Nebbiolo mesmo? Era. Uva de Encruzilhada do Sul, na Serra do Sudeste gaúcha, a uns 400, 450 metros, vinificada pela Ruiz Gastaldo, vinícola urbana de Porto Alegre, fundada em 2016, que compra uva de produtores da região. Oito meses em barrica de terceiro uso, e o Daniel Rondon, confrade que representa a casa e estava na mesa, contou que a colheita é um pouco antecipada para guardar frescor. O tanino da frente é de Nebbiolo, sem discussão. Fruta vermelha, uma salinidade simpática. Mas no meio da boca e para a parte de trás do palato apareceu uma trava que me pareceu de uva que não completou a maturação.
E isso não é falha de quem faz o vinho. É o nosso verão. Chuva em fevereiro e março pega em cheio uma uva de ciclo longo como a Nebbiolo, que brota cedo e amadurece tarde. Nariz a cantina consegue construir. Concentração de boca e tanino maduro, não. Por isso, para mim, o tanino é a melhor ferramenta para identificar uva às cegas: é a parte do vinho que a cantina menos consegue disfarçar. (Para ler tanino direito, aliás, espalhe o vinho pela boca inteira, como um enxaguante, e espere. Só no meio da língua, você perde metade da informação.)
O Agripina, que vem de 1.290 metros em São Joaquim, não me convenceu nesta noite. Os quatro anos de madeira desse cuvee de safras escondeu totalmente a fruta da Nebbiolo tanto no nariz quanto em boca - e claro, a comparaçao com todas as outras Nebbiolo da noite tornou a avaliaçao mais injusta. Fica para outra conversa, com calma e com a garrafa de novo na frente.
A Valtellina, que eu não visitei
A Valtellina ficou fora da viagem, mas não podia ficar fora da noite. Não dá para falar de Nebbiolo longe das Langhe sem falar da Chiavennasca. E talvez seja ali que a uva nasceu, segundo um estudo genético de 2006 que liga a Nebbiolo a variedades locais. Um vale encaixado, com o Adda correndo de leste para oeste (coisa rara nos Alpes), vinha só na encosta norte, virada para o sul, presa em terraços de pedra seca.
A Valtellina Superiore e as sottozone, todas na encosta virada para o sul. Mapa 3D: oraziocampoli.com, com as zonas oficiais da Regione Lombardia (CC BY 4.0).
Fechamos com dois estilos da mesma casa. O Valtellina Superiore Riserva 2018, de uma safra que os relatos locais chamaram de memorável, e o Sfursat Carlo Negri 2010, feito com uva seca em fruttaio por cerca de 100 dias e assinado pelo Casimiro Maule, que comandou a enologia da Nino Negri de 1971 a 2018. Dezesseis anos desde a vindima. Não é uma comparação controlada (muda a safra, muda a idade, muda a mão), mas mostra o que a passificação faz com a mesma uva. E o Sfursat estava vivo, lindo, ainda com muita fruta (passita, mas tinha).
Mesma casa, mesma uva, dois caminhos: Valtellina Superiore Riserva 2018 e Sfursat 2010, de uva seca.
Minhas notas
Eu anoto cada taça em duas camadas. Primeiro uma herança do SAT do WSET, o EPICC: equilíbrio, persistência, intensidade, complexidade e concentração, cada um de 1 (defeituoso) a 5 (excelente), com meio ponto quando fico na dúvida. Essa eu nao chego a marcar aqui no texto. e sempre tento anotar dois adjetivos, notas de degustacao, que me faça lembrar do vinhos mais tarde. Depois, a nota final em 20 pontos, como a mestre Jancis e a escala de pontos da UC Davis, que não é a soma de nada (é o julgamento do conjunto). E tenho agora tentado traduzir os 20 pontos na tradicional escala de 100, botando uma equivalência na régua de 100 da Wine Enthusiast já que gosto de acompanhar o Jeff Porter. Os vinhos da Valtellina ficaram só com a nota final, o Agripina ficou sem nota, e o Barolo e o Nevoeiro, presentes da noite, sem nota. Opinião de um sujeito só. Numa noite.
Antoniolo · Gattinara DOCG Riserva 2015: nota 18,5/20; Wine Enthusiast 95 (Superb)
Nadia Curto · Langhe Nebbiolo DOC 2023: nota 18,0/20; Wine Enthusiast 94 (Superb)
Malvirà Trinità · Roero DOCG Riserva 2020: nota 18,0/20; Wine Enthusiast 94 (Superb)
Travaglini · Gattinara DOCG Riserva 2018: nota 17,5/20; Wine Enthusiast 92 (Excellent)
Muraje Sumié · Carema DOC 2022: nota 17,0/20; Wine Enthusiast 90 (Excellent)
Le Piane · Boca DOC 2020: nota 16,5/20; Wine Enthusiast 89 (Very Good)
Antoniolo Juvenia · Coste della Sesia DOC 2022: nota 16,0/20; Wine Enthusiast 88 (Very Good)
Antoniotti · Bramaterra DOC 2021: nota 16,0/20; Wine Enthusiast 88 (Very Good)
Nino Negri · Valtellina Superiore DOCG Riserva 2018: nota 16,0/20; Wine Enthusiast 88 (Very Good)
Nino Negri Sfursat Carlo Negri · Sforzato di Valtellina DOCG 2010: nota 16,0/20; Wine Enthusiast 88 (Very Good)
MIRÚ · Ghemme DOCG 2019: nota 16/20; Wine Enthusiast 88 (Very Good)
MIRÚ Rossini · Colline Novaresi DOC Rosato 2023:nota 15,0/20; Wine Enthusiast 85 (Good)
Nino Negri · Rosso di Valtellina DOC 2022: nota 15,0/20; Wine Enthusiast 85 (Good)
Repare numa coisa: o meu top 3 bateu exatamente com o da turma. Não combinamos nada, juro.
O que eu falei errado (e a versão certa)
Como na Etna, fui atrás do que escorregou na fala.
O Rossini não tem corte confirmado. Falei 60% Nebbiolo, 20% Vespolina e 20% Uva Rara duas vezes. Esse número circula no varejo europeu, mas a importadora lista as três uvas sem percentual.
A Uva Rara tem, sim, varietal. Eu disse que não se acha. É raro, mas existe, quase sempre como Colline Novaresi DOC. E o nome não tem nada a ver com dificuldade de encontrar: vem do cacho ralo, de bagas espaçadas.
Enfer d’Arvier não é Nebbiolo. Citei o lugar como uma das apostas do Valle d’Aosta, mas o Enfer é Petit Rouge. A Nebbiolo do vale (Picotendro, como em Carema) está em Donnas e em Arnad-Montjovet, perto da divisa com o Piemonte.
A unificação da Itália é de 1861, não de 1864. E o detalhe bom vem de Lessona: em 1861, o estadista Quintino Sella brindou o primeiro governo da Itália unida com o vinho de lá.
Para levar
Deixei duas perguntas no último slide, e repito aqui. Qual vinho ou lugar mudou mais a sua ideia de Nebbiolo? E, do pórfiro vulcânico à marga, da pérgola ao fruttaio do appassimento, qual é a sua Nebbiolo?
A minha resposta está nas notas aí em cima.
O Guilherme, claro, estragou as perguntas trazendo o Scarzello para o fim (Barolo de verdade, da comuna de Barolo, 2020). Mas tudo bem: em 2027 tem masterclass de Barolo e Barbaresco, e antes disso, se o calendário deixar, uma noite de brancos do norte da Itália. Timorasso, Nascetta, Arneis, Ribolla Gialla e companhia.
Fim de noite, cada rolha na frente da sua garrafa. O Scarzello ali no meio é culpa do Guilherme.
As fichas técnicas completas, as safras e o relógio de cada denominação vão para a apostila da noite, que segue para quem participou. Se você quer entrar no grupo das próximas, é só me chamar.
Pablo Fernandez é Italian Wine Ambassador da Vinitaly International Academy e escreve em beboitalia.com.













